Tudo é teatro

TUDO É TEATRO!

Adoro essa expressão (de Augusto Boal, famoso teatrólogo e escritor), que reflete, com muita propriedade, as relações empresariais. E as relações íntimas e pessoais, também, sem dúvida.

Mas retomo a uma expressão que utilizo com frequência de que “todo empresário é um bom ator” para reforçar esse posicionamento como norma de conduta nas organizações.

De forma geral sempre se está “representando” um papel.

Poderia dizer que temos “várias personalidades”. Mas as “personas” não pressupõe a multiplicidade de personalidades e sim de comportamentos.

Indiscutivelmente somos forçados a manter diferentes comportamentos em diferentes graus de exigência social. Não podemos nos comportar de mesma maneira em todos os ambientes.

Esse é um fator de adaptação, característica essencial e diferencial da raça humana, que tem efetiva responsabilidade pela perpetuidade da espécie.

Então, exercemos uma ação de adaptação que podemos chamar de “efeito camaleão”, isto é, nos tornamos parecidos com o meio em que estamos.

Por exemplo: no ambiente profissional nos é exigido maior concentração, foco e, na maior parte dos casos, certa contenção de ânimo e sociabilidade.

Se estivermos entre amigos adotamos, normalmente, um comportamento mais descontraído e, até, brincalhão. Por vezes pessoas que nos conhecem em um desses ambientes estranham o nosso comportamento no outro ambiente.

Na família podemos ser mais autênticos. E assim em outros ambientes em nome da necessidade de adaptação e aceitação. Sim este é outro componente, a aceitação. Frequentemente nos comportamos de forma a sermos aceitos pelas personagens de um determinado ambiente. Isso é, “jogamos o Jogo”.

Sempre estamos usando máscaras. Em princípio não posso emprestar apenas um sentido negativo para isso. É, frequentemente, uma questão de adaptação ás circunstâncias. Afinal somos sobreviventes não porque somos mais fortes, mas porque somos mais adaptáveis.

E então, quem somos? E como está a nossa aceitação de nós mesmos?

Sem dúvida não temos várias personalidades (pelo menos não normalmente).

Somos, sempre, a mesma pessoa. Essa constatação é determinante para que possamos interpretar vários papéis no “teatro da vida”, mantendo nossos princípios e valores que estabelecem nossa individualidade. Essa consciência, mesmo com a necessidade de adaptação aos diferentes ambientes, nos permite manter a coerência e a firmeza para enfrentar adversidades. Esse é um ponto fundamental na aceitação da nossa individualidade e, como é esperado, de nossas qualidades e defeitos. Só poderemos assumir uma postura mais segura e objetiva se pudermos aceitar-nos. Afinal, conhecer necessidades é o primeiro passo para o desenvolvimento.

Nascemos sem ela (a máscara), mas com o tempo e o enfrentamento da vida vamos nos aproximando da necessidade de nos cobrirmos. Um pouco por necessidade de adaptação, um tanto por comodidade do anonimato e outro tanto para proteção. Apenas proteção. Às vezes de nós mesmos. Outras vezes, além de nossa proteção, servem para proteger os outros.

Afinal o que aconteceria se formos muito sinceros quando nos perguntam: E então, como Você está? Pois é!

Mas é muito interessante observar os diversos tratamentos dessa situação.

Clarice Lispector em trecho do seu texto – Persona: Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. É a liberdade horrível de não ser. É a hora da escolha”.

Maravilhosa Clarice que estampa, com terrível objetividade, a realidade nua.

Tudo é teatro então. A máscara tem sua razão, mas temos que tomar muito cuidado para que ela não se torne nossa “camisa de força”. Afinal não podemos esconder, sob a máscara, as nossas angústias, desalentos e outros lamentos esperando que dessa forma a solução vá aparecer (ou não vá incomodar).

É preciso exercer uma vigilância de grande esforço porque temos uma capacidade inesgotável de nos enganar.

Como exemplo, uma obra prima de Fernando Pessoa.

 “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”! 

Fantástico!!!

Pois é, também fazemos isso!

Bernardo Leite

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